segunda-feira, 14 de junho de 2010

RESENHA: As cidades sobre um novo olhar

CALVINO, Ítalo: tradução de Diogo Mainardi. As cidades Invisíveis. Campanha das Letras. 2. ed., São Paulo: Schwarcz LTDA, 1990. 150p.

O escritor cubano Ítalo Calvino (1923-1985), consagrado como um dos mais importantes escritores italianos do século 20, fez seu doutorado na Faculdade de Turim em letras com uma tese sobre Joseph Conrad. Lança seu primeiro livro em 1947. Seus primeiros grandes sucessos são: O Visconde Partido ao Meio (1952), O Barão nas Árvores (1957) e O Cavaleiro Inexistente (1959). Em 1972 publica As cidades Invisíveis, que se destaca no repertório da literatura pós-modernista da Europa.
Em Cidades Invisíveis, Ítalo Calvino utiliza o viajante Marco Polo para descrever as cidades por onde ele teria passado em suas expedições, enviadas pelo imperador Kublai Khan para inspecionar as províncias mais remotas, os mensageiros e os arrecadadores de impostos daquele. A obra reúne 55 contos curtos de cidades, descritas com riquezas de detalhes, através de um diálogo fantástico entre Kublai e Polo, numa série de 11 temas: as cidades e a memória, as cidades e o desejo, as cidades e os símbolos, as cidades e os mortos, etc. O livro é composto de subjetividade, metáfora, incertezas (dependendo da imaginação do leitor) e de memória, tendo como fato curioso os nomes das cidades: todas são de mulheres.
Esta tradução, feita por Diogo Mainardi, publicada pela Cia de Letras, em 1990, com 150 páginas, proporciona ao leitor conhecer uma das belíssimas obras de Ítalo, fazendo uma viagem pelas cidades invisíveis, conhecendo detalhes que jamais seria observado se não fossem os olhos de Marco Polo. Os contos nos levam a passear por cidades fantásticas, como em Sofrônia, cidade divida em circos e monumentos; em Zemrude, cidade onde o humor das pessoas dá sua forma; em Otávia, cidade teia de aranha; em Leandra, cidade protegida por dois deuses e em Adelma, cidade onde os moradores têm semelhanças com os ex-moradores já mortos, dentre outras. Polo descreve simples observações como um salto de um peixe que escapa do bico de um camarão e de uma cidade onde um homem atravessa o fogo nu sem se queimar.
A obra mexe um pouco com a imaginação do leitor, não se sabe se Marco Polo descreve mulheres ou realmente cidades, e se for mesmo cidades, se elas existem ou não passou de uma extraordinária imaginação do autor Ítalo Calvino. Kublai Khan quis confirmar se o que Polo dizia era verdade, consultando um atlas cujos desenhos representavam todo o globo terrestre, mas acabou acatando o que ouvia por não ter algo contundente que comprovasse a sua incerteza, e continuava a ouvi-lo curiosamente. No entanto, independente da veracidade de seus contos, Marco Polo nos convida a olhar minuciosamente os pequenos e os grandes elementos de nossa cidade, para que ela não se torne mais invisível.
Ítalo Calvino, neste romance, nos convida a dar fabulosos saltos imaginários em cidades, que visivelmente, nunca foram visitadas por ele. A interpretação dos seus textos se embaraça um pouco devido as inúmeras metáforas empregadas, causando algumas imaginações no leitor. No entanto, ela desperta prazer por ser narrado em pequenos contos e por mudar constantemente a ordem dos temas, para não confundir a história dos mesmos.
O livro possui uma rica descrição de coisas bem simples que geralmente não somos capazes de observá-los em nossa cidade e que podem, até, torná-la mais atraente. Pode ser usado por qualquer público leitor e em qualquer curso, desde que tenha interesse em conhecer e passear nas cidades invisíveis.

Valdelice Santos

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