sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A espera inesperada

   Muito espevitada, ela devorava os livros com seu encanto pela leitura, era bem magrinha, nem alta e nem baixa, cabelos caracolados e possuidora de grandes olhos cor de mel. Fazia parte de um grupo de amigos que possuía uma grande aptidão para a leitura. Eu era a única que não tinha interesse pelaleitura, apesar de ter um pai dono de uma livraria.
     Acho que passava uma péssima impressão de minha pessoa para meus amigos. A começar pelos presentes que eu dava. Deveria presentear com alguns livros que eu sabia que eles sonhavam em ler. Nunca tinha analisado esse caso. Sempre me preocupei em presenteá-los com cartões-postais bem baratos da loja de meu pai, com paisagens daqui mesmo de Recife. Escrevia atrás do cartão, bem bordadinhas, pobres palavras como ´´data natalícia´´ e ´´saudade´´.
     Na minha alta ignorância, nem notava o desprezo de meus amigos. Eles faziam encontros de leitura na pracinha, justamente porque sabiam que não contaria com minha presença, já que eu não gostava de ler. Muitos foram os encontros desse tipo. Pensando tudo isso agora, vejo que faziam isso por requinte de perversidade. Mas eu não era tão ruim assim.
      Num dia de grande calmaria na cidade, alguém bateu à minha porta com pequenas pancadinhas. Minha mãe foi ver quem poderia ser àquela hora da manhã. Era ela, a devoradora de livros. Então, ela entrou e veio na minha direção. Pediu com uma voz bem suave para eu emprestar o tão sonhado livro ´´Reinações de Narizinho`` de Monteiro Lobato.
      A realização desse sonho poderia ser um sacrifício para mim. Meu pai havia me proibido de emprestar os seus livros, mas como ela me garantiu que devolveria depois de uma semana, terminei emprestando. Ela marcou o dia e o horário para me devolver o livro.
        Como o combinado, fui, então, no dia marcado. Com um sorriso de canto de boca, disse estar amando a leitura, aproveitado cada palavra daquele grosso livro, no entanto, ainda não tinha terminado de ler, e que eu voltasse lá depois de três dias.
       Muito ansiosa, com o coração bem reduzido e quase gelado, preocupada com a não devolução do livro, bati desesperada na porta dela o dia indicado. Depois de alguns minutos de espera, ela apareceu com aquele mesmo sorriso. Contou a radiante felicidade que estava vivendo com a leitura do livro. E, mais uma vez pediu para que eu retornasse no dia seguinte. Aceitei. Mas que tola sou eu. Nem insisti na devolução naquele dia mesmo.
      E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela tinha a malícia de me convencer, sem ao menos me deixar argumentar. Mas eu me perguntava sempre o porquê que ela me fazia sofrer tanto. O que será de mim quando meu pai descobrir tudo?
Quanto tempo? Eu ia diariamente a sua casa, sem faltar um dia. Às vezes ela dizia que faltava um parágrafo e em pouco tempo terminaria, que no final da tarde eu retornasse. E, eu que não era dada às olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
       O medo que meu pai desse por falta do livro e descobrisse a minha desobediência, me tomava por completa. Até que um dia, quando eu me encontrava à porta de sua casa, ouvindo seus passos mansos pela sala, apareceu o seu irmão. Acho que ele se interrogou o motivo de minhas idas constantes à sua casa. Pediu explicações de nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. Mas no final, ele acabou entendendo o grande mistério. Voltou-se à sua irmã e com enorme surpresa exclamou: mas este livro você leu no mesmo dia que trouxe. Não quis fazer nada, nem sequer saiu do quarto até terminar a leitura.
     Tomado pela surpresa, tentou arrancar explicações da irmã para tamanha perversidade. Não tendo nenhuma resposta, fez a menina devolver o livro, ameaçando espalhar um de seus milhões de segredos. Em silêncio a menina devolveu o livro.
        Como descrever a emoção de ter em minhas mãos novamente aquele livro? Acho que milhões e milhões de sorrisos brotaram de minha boca em poucos segundos. Ah, o que importa como eu fiquei. Sei que o único caminho que me vinha à mente era o da livraria de meu pai. Incrível! Inacreditável! Assim que eu coloquei o livro na prateleira, meu pai foi procurá-lo. Havia alguém muito interessado no livro. Meu pai disse que era uma pessoa apaixonada pela leitura e que já havia lido esse livro, porém era emprestado. Mas não me interessei em conhecer essa pessoa, quis continuar me deliciando mais um pouco a alegria do fim daquela espera inesperada.

Valdelice Santos


(Baseado no conto felicidade clandestina de CLARICE LISPECTOR)

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