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Vida em jogo

Há muitos e muitos anos, um senhor passou a fazer muito dinheiro com partidas de baralho.  Ele comprou carro, tinha uma fazenda de fazer inveja a qualquer fazendeiro da região do Sinunga, que fica numa pequena cidade chamada São Félix.  Não andava no luxo, suas roupas eram simples, mas dinheiro ele tinha o suficiente para viver sem trabalhar por muitos anos. Seu coração era enorme e não via maldade em ninguém. Ele ajudava todo mundo que pedia ajuda. Tristeza não tinha lugar em sua face. Ninguém sabe como conseguia vencer praticamente todas as partidas do jogo. Roubar não era o caso. Seus adversários prestavam bastante atenção nisso.  Seu Garapa, assim todos o chamam, tinha muitos amigos e alguns deles eram seus adversários nas partidas de baralho. Esses, na verdade, eram seus inimigos, a ponto de desejar todo tipo de mal para ele. Mas mantinha uma falsa amizade, e Garapa nunca percebeu nada. Ele até os tinham como os seus melhores amigos.  Joaquim, Rufino e Nadi...

A caixa

          S eu Gregório era um homem solitário, desfrutava seus 70 anos com muito vigor. Teve dois filhos com dona Zefa, mas depois que cresceram, decidiram morar na capital baiana. Dona Zefa morreu de causas naturais quando seu Gregório completou 66 anos. Depois disso, ele passou a morar sozinho, não gostava de muitas visitas, tinha apenas a companhia de dois cachorros, um gato e três pássaros, além de seu velho amigo rádio. Ele cultivava uma pequena plantação ao redor de sua casa, no Outeiro Redondo, comunidade de São Félix, de onde tirava boa parte do seu sustento.      Certa vez, apareceu na sua porta um rapaz com uma áurea esquisita, vestido com uma camisa azul e amarela e uma calça azul escuro, na cabeça usava um chapéu também azul, que cobria parte do seu rosto, os sapatos pretos estavam sujos de lama. Carregava também, uma mochila nas costas, alguns papéis e uma caixa nas mãos.      Seu Gre...

A alma penada da igreja velha

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Era uma cena que ninguém desejaria ver e Carlinhos jamais pensou em estar naquele lugar e ouvir tudo aquilo. Foi horrível. Ainda bem que sua presença não foi notada.  Ouvia-se muitos sussurros ecoados dentro de uma igreja velha, ao redor de uma ilha, na comunidade de Coqueiros, em Maragogipe. O som foi ficando cada vez mais forte, Carlinhos se aproximou mais um pouco e passou a ouvir risos. Ele se desesperou.  Aquele lugar era bem deserto, pouco visitado, como poderia ter alguém ali dentro e ainda feliz? Carlinhos não parava de pensar nisso. – Mas por que eu vim parar aqui? O que está acontecendo? Não quero ficar aqui. O que eu faço agora? Não posso gritar, essa coisa vai me descobrir aqui. Mas por que ela está rindo? - se questiona, Carlinhos.  Carlinhos estava ali por acaso, não tinha notado que se distanciou tanto de sua casa. Sua pipa soltou de suas mãos e, sem saber ao certo onde caiu, ele saiu a procurar. Tudo que ele queria era sair dali o mais rápido possível....

Todos em alerta contra moradores intrusos no Paraguaçu

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– Poxa, que saudades dos velhos tempos, não é Seu Siri Cascudo ? – Nem me fale, Velho Roubalo. Naquela época, não tão distante, a gente descia esse rio Paraguaçu até a comunidade de Nagé, em Maragogipe , depois voltávamos para São Félix e Cachoeira. E como nossas famílias eram grandes! Hoje está tudo mudado. Quase não encontramos mais ninguém daquele tempo. – Pois é. Depois que os novos moradores vieram para o nosso rio, a coisa aqui complicou assustadoramente. Nunca mais aquela liberdade plena. – Eu já perdi as contas,  Velho Roubalo,  de quantos moradores novos vieram para cá e poucos são os que somem para sempre. – Não acredito, seu Siri Cascudo, que o Senhor ficava contando aquele monte de pneus, sacolas, garrafas e outros detestáveis moradores que entraram no nosso rio. – No início contava sim, para vê até onde ia chegar tudo aquilo, mas depois notei que poucos se importavam com o nosso bem estar. – Ah, você soube a causa da morte de nossa amiga Camaroa ...

O que o ano velho tinha que ninguém viu

Curiosa como ninguém, Bianka queria saber de todas as coisas misteriosas do mundo. Ela morava numa redondeza de Maragogipe e tinha apenas 15 anos, mas parecia uma criança com 3, na era dos “porquês’’. Outro dia mesmo ela questionou por que os meses geralmente têm 31 ou 30 dias, por que nem todas as plantas põem flores. A última dela foi perguntar para aonde a água da maré vai e de onde vem. A tia dela, Dona Bilú, achava a menina muito esperta e começau ver ali um futuro de investigadora, porém se aborrecia com algumas perguntas da garota. As respostas que obtinha nunca eram suficiente, Bianka sempre continuava na dúvida e pesquisava em outras fontes. Mas a curiosidade não é a única característica da menina, ela tem muitas outras e uma delas é a observação. Já perto de terminar o ano de 2012, quando todos de sua família estavam reunidos na mesa do jantar, ela levantou e falou:  – Eu vi o que o ano velho tinha de maravilho que ninguém viu. Que apostar ? Ninguém se atreveu a ...

Tudo pronto para o aniversário de Yole

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         Doces de todos os tipos e com quantidade exagerada, casa decorada, convidados chegando e nada, nada de Yole.         Cadê Yole? Era o que todos se perguntavam, mas as respostas eram dadas de forma diferente para cada um.          - Está se arrumado.          - Está chegando da casa da tia Marly.          - Aconteceu um imprevisto, mas daqui a pouco ela chaga.         Porém o verdadeiro motivo do atraso, ninguém sabia ao certo. A menina saiu de casa sem que ninguém tivesse notado. O trajeto era misterioso até para a própria Yole. O que fazer, ela sabia bem, entretanto só não tinha a ideia por onde começar.         Fotografava com os olhos todas as pessoas que passavam por ela, os jardins, as casas, os pássaros e enfim, chagou a imagem que buscava no meio do nada: a paisagem contém uma escadaria que d...

Tudo poderia ser diferente sem Gatinho

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      Depois de uma noite de festa regada a azaração, gente bonita, um momento de amor com a pessoa que gosta e ainda ter a oportunidade de dormir na casa dela, só resta imaginar uma noite perfeita.        Isso poderia acontecer com qualquer pessoa, menos com Beto. Ele e ninguém poderiam imaginar que aquela noite, que tinha tudo para ser a mais perfeita de todas, acabaria num pesadelo. Beto foi a Cachoeira à convite de sua paquera, Verona, e como ele não tinha onde dormir, ficou hospedado na casa dela. Mas dormir junto nem pensar.         De companhia e espiãs, ao mesmo tempo, os dois tinham os pais e a irmã de Verona, que não perdiam um só lance do casal. A irmã até que dava um desconto. Mas ninguém na casa sabia do lance deles, apenas desconfiava.        Verona apresentou Beto como amigo de colégio. Ela não mentiu, só não quis contar os detalhes de seu coração.         Hora de...

Um louco defensor dos animais

         Seu João Mocô, um velho conhecido da comunidade do 135, em São Félix, andava chamando a atenção de todos na cidade pela forma que protegia os animais. Morava só e não tinha parentes próximos. Seu corpo franzino, estatura mediana e saúde debilitada por causa de uma diabete, não impediam de enfrentar qualquer pessoa que ousasse fazer algum sofrimento aos animais.         Seu João defendia até as lagartas, abelhas, minhocas e formigas. Para ele não importava a espécie de onde os animais pertencessem. Se tivesse vida e não fossem capazes de se defenderem sozinhos, ele se sentia na obrigação de agir em sua defesa.          Muita gente não dava bola para as atitudes de seu João e o taxaram de louco. Mas ele afirmava que realmente era louco, porém pelo bem-estar dos animais. Tinha um dia do mês que esse senhor reunia as pessoas de sua comunidade para contar a importância que os seres vivos têm na nossa vida. É...

Achados e perdidos

     Quem nunca na vida esqueceu algo em algum lugar e nem sabia ao menos por onde começar a procurar?      Um menino astuto e esperto chamado Levidone Santana é um único na redondeza do São Francisco do Paraguaçu, em Cachoeira, capaz de encontrar tudo que se perde por ali. Ele nunca revela o seu segredo, mas conta que tudo que se perde é possível de ser achado.         Seu irmão, Leo, vive na tentativa de imitá-lo. Até já seguiu o irmão durante dias, mas nada pode ser descoberto.          Conta-se as bocas felinas que Levidone só encontra as coisas perdidas porque é ele próprio que faz com elas sejam perdidas. Depois de perdidas, as pessoas o procuram e ele acaba achando, pois ele já sabe exatamente onde estão, já que foi ele que causou o sumiço.        Outros boatos que se ouvi pela cidade de Cachoeira é que o menino esperto tem simplesmente o dom de achar tudo que foi perdido. E tudo q...

Experiência com pombo

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            C om leves e suaves voos, os pombos chegam prontos para dá boas-vindas a todos que visitam a cidade de Maragogipe. Sua fama já atingiu toda a redondeza da ci dade e até mesmo a da região.        Há os que gostam, os que amam e os que odeiam. Odeiam por dois motivos: primeiro, porque acreditam que eles só fingem serem amigos para conseguir restos ou migalhas de comida, e segundo, porque fazem as suas necessidades fisiológicas be m em cima da cabeça das pessoas, às vezes erram a pontaria e cai nas costas mesmo. Aí, realmente ninguém gosta!          Mas quem não teve a experiência de um dia se emocionar com um pombo? Se não teve, é uma pena mesmo. Outro dia, eu estava sentada na varanda de minha casa, que fica do lado da Igreja Matriz, lá tem uma grande concentração de pombos, pois bem, vi uma bomba, acredito que seja fêmea devido ao seu jeito meigo e delicado que teve ao pegar um pedaço de maçã,...

Foi num dia de primavera

     O dia amanheceu nublado, com bastante aspecto de chuva. Parecia que aquele dia não iria trazer nenhuma novidade. Seria um dia qualquer, mas era para ser o dia mais feliz de todos. Minha tia me daria o presente dos meus sonhos. Não era meu aniversário. Era o meu dia, ou melhor, dia das crianças.      Mas a minha certeza de um dia repleto de felicidade não ficou perdido pelo ar. Sou otimista de mais para me deixar ser levada pela tristeza boba de um amanhecer. Tinha a certeza que a tarde seria a mais divertida de todas. Na minha imaginação, até as estrelas apareceriam durante o entardecer para me transmitir mais alegria.    Fui à janela de minha casa só pra ver se o tempo feio tinha sumido, então dei de cara com o Sol. Ele estava lá sorridente, ao lado de uma pequena nuvem, que já ia saindo de fininha de perto dele. Olhando em direção a minha rua, vi minha tia trazendo uma sacola na mão. Com certeza seria o meu presente.     ...